Nós tínhamos um cachorrinho, o Afonso, era a coisa mais linda. Não podia me ver chegar que já corria abanando o rabinho. Ele era muito sapeca,
Não, pai, Afonso não é nome de cachorro, disse minha filha me
olhando escrever, Tem que ser Pitoco ou Rex, Afonso é nome de gente. Ela
ficou de recuperação e tinha que fazer uma redação sobre a imagem que a
professora deu: um vira-lata babando num sapato, com uma casa no fundo. Tinha
que tirar 9,5 pra passar de ano, e como sou escritor, e representante imobiliário,
pediu pra mim. Não acho legal fazer isso, mas pior é ver a coitadinha repetir o
ano.
Nós tínhamos um cachorrinho, o Fred
Ela aprovou e eu continuei.
vivia bagunçando tudo. Papai se
irritava e
Não, a profe vai pensar que eu tenho seis anos se eu escrever papai,
voltou a me interromper, E eu já sou moça. Concordei, ninguém fala papai
hoje em dia.
Meu pai sempre se irritava e
acabava ralhando com ele, daí
Eu não sei o quê que é ralhando, me interrompeu de novo, Não ia
escrever isso. Pedi pra ela dar uma volta que eu terminava, depois a gente
mudava o que ela não gostasse. Saiu saracoteando, mas me lembrou, É pra
tirar dez tá, pai.
acabava brigando com ele, e eu
ficava triste. Lá em casa vivia uma briga por causa do Fred, era xixi no
tapete, cocô na sala, pelo na roupa, jardim cavado. Mesmo assim eu gostava
muito dele, minha mãe também, só meu pai que não
Fiz o texto em duas páginas depois saí pra tomar um café e fumar, só
faltava revisar. Fiquei pensando que a professora dela podia descobrir que o
texto era meu, ela sabia que eu escrevia, até dei um livro meu pra ela, mas
acho que não leu, ela nunca comentou nas reuniões. Ia ter que mudar umas coisas
no texto pra ela não sacar.
Quando voltei pro computador minha mulher tava editando o texto, Que
final é esse?
e da última vez que eu vi o Fred só
lembro dele latindo abafado dentro do saco. Não sei pra onde meu pai o levou.
Expliquei que era melhor deixar um fim aberto pro conto, nada definitivo,
se bem que eu tinha pensado num desfecho ótimo, mas não dava pra usar porque a
professora ia sacar hora que era coisa de escritor dos bons.
Minha mulher ficou louca comigo e me disse, Você não pode escrever que
o Fred morreu, é texto de criança. Expliquei que eu não tinha escrito isso,
ficava subentendido, além do que já dava pra saber pela primeira frase que eles
não tinham mais o cachorro, isso tava na cara, não tinha como fazer um final em
que eles viviam felizes com o vira-lata. Ela ficou bem irritada, apagou o texto
e escreveu outro. O dela se chama Canário
amarelinho, eu nem tinha percebido a gaiola com um passarinho naquela
imagem, só via o pulguento destruindo o sapato. Na história dela, eles soltam o
canarinho e no final ele volta com uma namorada e filhotinhos que ficam
cantando no beiral da casa.
A menina passou de ano, eu revisei o texto da minha mulher e inscrevi num
concurso literário como se fosse meu, ainda não saiu o resultado, mas a gente
nunca sabe o que esperar dessas coisas.
Este conto foi premiado no concurso Ler&Cia e publicado na revista Ler&Cia n. 33, 2009.
ResponderExcluirA pergunta Foucaultiana "O que é um autor?" é ótima para este texto!!! Adorei!
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