segunda-feira, 28 de abril de 2014
A memória debaixo dágua
Um baú de tralhas imêmores me é entregue, herdei de meu avô. Um estilingue de infância, que a elasticidade abandonou, a fotografia sépia de uma antiga mocinha, sua identidade sepultada na consciência do velho, minha avó talvez. O capacete de um mergulhador que se finou no rancor do neto impúbere. A visão das velharias me dói, afasto-me. Passos lentos, sou o último astronauta do fundo do mar. No escafandro enferrujado do meu avô, caminho. Levanto fumaça molhada de areia. Esforço-me, estico as pernas, quase rasgo os tendões. A arraia me olha, curiosa, como se perguntasse Por que tudo isso?, mas não tem coragem de se pronunciar. Tento me apressar. Na opacidade da distância, sua silhueta. O alcanço, enfim. Ouço o eco de minhas palavras dentro do traje. Levanto o braço, tiro as algas do seu rosto. A dureza do olhar me diz que sou só um peixe, que a mágoa do tempo afagou.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Bestiário
um
bicho
parece
um besouro
um
caranguejo
sei que
não é
veio do
porão
roeu
aqueles livros
devorou
o Felix
achei a
carcaça
debaixo
da pia
uma
carniça
acho
que dormi
dói
dentro da boca
não
posso falar
comeu
minha língua
de
raiva matei o gato
temperei
com conhaque
iogurte
de pêssego
tinha
sabor ruim
pêlo
coçando na garganta
Acordo
não sei se dormi
a
língua doendo ardendo
gosto
de ferro ferrugem
vejo na
pia a faca suja
de
sangue
no
espelho abro a boca
sinto a
dor zonza da vertigem
minha
língua rasgada bifurcada
como na cobra
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