segunda-feira, 28 de abril de 2014

A memória debaixo dágua

Um baú de tralhas imêmores me é entregue, herdei de meu avô. Um estilingue de infância, que a elasticidade abandonou, a fotografia sépia de uma antiga mocinha, sua identidade sepultada na consciência do velho, minha avó talvez. O capacete de um mergulhador que se finou no rancor do neto impúbere. A visão das velharias me dói, afasto-me. Passos lentos, sou o último astronauta do fundo do mar. No escafandro enferrujado do meu avô, caminho. Levanto fumaça molhada de areia. Esforço-me, estico as pernas, quase rasgo os tendões. A arraia me olha, curiosa, como se perguntasse Por que tudo isso?, mas não tem coragem de se pronunciar. Tento me apressar. Na opacidade da distância, sua silhueta. O alcanço, enfim. Ouço o eco de minhas palavras dentro do traje. Levanto o braço, tiro as algas do seu rosto. A dureza do olhar me diz que sou só um peixe, que a mágoa do tempo afagou.