sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O diabo na minha casa

Eu saí do banheiro, ele tava sentado naquela cadeira ali, ó. Nem percebi que tinha alguém, só notei que ele tava aqui porque quando eu passei, ele se mexeu.
O que você tava fazendo no banheiro?
Tava tomando banho. Eu saí enrolada na toalha e dei de cara com ele. Tava segurando a toalha, me assustei e ela caiu, eu fiquei pelada. Pelada na frente dele. Não sabia se sentia medo ou vergonha.
Você ficou com vergonha?
Não sei, acho que na hora eu não consegui fazer nada. Nem lembro se eu juntei a toalha ou se fiquei daquele jeito mesmo. Tinha um cheiro forte de queimado. Eu fiquei parada que nem um valete.
Ele não fez nada?
Não. Ficou sentado, pegou um copo que tava na mesa, colocou na frente do olho e me olhou pelo fundo transparente. Ficou só olhando, não fez nada.
Não tinha mais ninguém em casa?
Eu tava sozinha, minha irmã só vem de noite. Depois ele entrou no banheiro e fechou a porta. E sumiu, não apareceu mais. Ficou só o cheiro ruim na cadeira, eu nem tirei do lugar, achei melhor não mexer. Depois que ele foi embora, eu me vesti, daí liguei pra você.
Você não ficou com medo?
Lógico que fiquei, mas não tinha como fazer nada. Não sei, na hora eu não pensei que fosse ele, mas depois eu fiquei pensando, e era ele sim. E a porta do banheiro tava fechada, eu empurrei e não tinha ninguém. Por que será que ele veio aqui na minha casa? Com tanto lugar pra ir.
Sei lá, ele não falou nada? Vai ver ele queria alguma coisa.                
Acho que ele falou, mas eu fiquei meio boba, não sei. Deve ter falado quando me olhou pelo copo.
Cadê o copo? Deixa eu ver.
Sumiu, acho que ele levou embora.  

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Recuperação


          Nós tínhamos um cachorrinho, o Afonso, era a coisa mais linda. Não podia me ver chegar que já corria abanando o rabinho. Ele era muito sapeca,
Não, pai, Afonso não é nome de cachorro, disse minha filha me olhando escrever, Tem que ser Pitoco ou Rex, Afonso é nome de gente. Ela ficou de recuperação e tinha que fazer uma redação sobre a imagem que a professora deu: um vira-lata babando num sapato, com uma casa no fundo. Tinha que tirar 9,5 pra passar de ano, e como sou escritor, e representante imobiliário, pediu pra mim. Não acho legal fazer isso, mas pior é ver a coitadinha repetir o ano.
 Nós tínhamos um cachorrinho, o Fred
Ela aprovou e eu continuei.
vivia bagunçando tudo. Papai se irritava e
Não, a profe vai pensar que eu tenho seis anos se eu escrever papai, voltou a me interromper, E eu já sou moça. Concordei, ninguém fala papai hoje em dia.
Meu pai sempre se irritava e acabava ralhando com ele, daí
Eu não sei o quê que é ralhando, me interrompeu de novo, Não ia escrever isso. Pedi pra ela dar uma volta que eu terminava, depois a gente mudava o que ela não gostasse. Saiu saracoteando, mas me lembrou, É pra tirar dez tá, pai
acabava brigando com ele, e eu ficava triste. Lá em casa vivia uma briga por causa do Fred, era xixi no tapete, cocô na sala, pelo na roupa, jardim cavado. Mesmo assim eu gostava muito dele, minha mãe também, só meu pai que não   
Fiz o texto em duas páginas depois saí pra tomar um café e fumar, só faltava revisar. Fiquei pensando que a professora dela podia descobrir que o texto era meu, ela sabia que eu escrevia, até dei um livro meu pra ela, mas acho que não leu, ela nunca comentou nas reuniões. Ia ter que mudar umas coisas no texto pra ela não sacar. 
Quando voltei pro computador minha mulher tava editando o texto, Que final é esse?
e da última vez que eu vi o Fred só lembro dele latindo abafado dentro do saco. Não sei pra onde meu pai o levou.
Expliquei que era melhor deixar um fim aberto pro conto, nada definitivo, se bem que eu tinha pensado num desfecho ótimo, mas não dava pra usar porque a professora ia sacar hora que era coisa de escritor dos bons.      
Minha mulher ficou louca comigo e me disse, Você não pode escrever que o Fred morreu, é texto de criança. Expliquei que eu não tinha escrito isso, ficava subentendido, além do que já dava pra saber pela primeira frase que eles não tinham mais o cachorro, isso tava na cara, não tinha como fazer um final em que eles viviam felizes com o vira-lata. Ela ficou bem irritada, apagou o texto e escreveu outro. O dela se chama Canário amarelinho, eu nem tinha percebido a gaiola com um passarinho naquela imagem, só via o pulguento destruindo o sapato. Na história dela, eles soltam o canarinho e no final ele volta com uma namorada e filhotinhos que ficam cantando no beiral da casa. 
A menina passou de ano, eu revisei o texto da minha mulher e inscrevi num concurso literário como se fosse meu, ainda não saiu o resultado, mas a gente nunca sabe o que esperar dessas coisas.


Eu, Tom & Jerry

 O diabo rói meu calcanhar. Não posso fazer nada. Ele levanta minha perna e torce, só pra eu ver o estrago. O sangue escorre pelo tornozelo, coxa, virilha. Ele ri. Fecho os olhos. Abro, continua escuro. Era mais um daqueles sonhos. Vontade de mijar. Tento levantar, as pernas não respondem. Formigamento. Saco. Balanço os joelhos pra ver se acordam. Que isso úmido na cama? As pernas molhadas. Que droga. Esse barulho. Que porra é essa arranhando? Roc roc. Me arrasto na cama e acendo a luz. Acaba o ruído. Lá fora passa um ônibus, um caminhão. Sei lá. Tremem os copos na pia da cozinha. Mijei na cama. Com a minha idade aprontando uma dessas. Qual foi o sonho? Não consigo mais dormir. Vou lembrar do que era. O colchão mijado tá esfriando. O sol entra no quarto. Tenho que trabalhar.   

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Meu episódio preferido é um que o Tom vai pro inferno. O Jerry empurra um piano pela escada. O Tom tá lá embaixo e morre. Fica o cadáver esticado no chão, a alma sai e tenta voar. Umas asinhas bem pequenas. Vem uma mãozona vermelha do chão, puxa o Tom pra baixo. Não lembro direito. Talvez não seja bem assim. Faz tempo que vi esse episódio. Sei que ele vai parar no inferno. O diabo é aquele buldogue enorme, o único personagem que fala. O buldogão fica cutucando o Tom com um tridente pra ele não sair do caldeirão. Mas ele acaba fazendo um pacto com o diabo. O Tom pega um papel. Um documento. E tem que fazer o Jerry assinar dizendo que perdoa todas as maldades. O pilantra não quer saber de assinar. Por mais que o Tom agrade. Explique a situação com umas mímicas. Implore. Não tem jeito. O Jerry sacaneia no episódio inteiro. Até que o buldogue aparece do chão com uma explosão de fogo e diz, Agora você vai ter que pagar, bichano. Acho que o Jerry se assusta também e acaba assinando o papel. Daí é tarde demais. Tinha um prazo. O Tom volta pro caldeirão. O buldogue vermelho ri. No final o Tom acorda. Era mais um daqueles sonhos. Tão caindo umas brasas no rabo dele. Acho que é mais ou menos isso. Não tenho certeza.

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Penduro o lençol no varal, a vizinha me olha meio de atravessado e vem me perguntar, Já cedo lavando roupa? Devia dizer que meu horário não é problema seu, mas não digo.

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É uma merda quando passa o trem. Não é porque o ônibus tem que parar e esperar. Não é o apito. Não são os vagões se arrastando um trás do outro. Não é a ansiedade de que termine logo. É a cara das pessoas. Parece que perderam um jogo. Campeões olímpicos velhos. Na última disputa. Sem glória. Vencidos. Um velhinho olha pela janela, balança a cabeça e fala Ah, não.

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No trabalho mal terminei aqueles papéis e mandaram outros. Tenho que fazer quatrocentos e trinta e cinco cópias de cada. Sempre faço mais pra garantir.
Prezado(a) Senhor(a)
Nossa empresa gostaria de propor
é de interesse de todos
uma oportunidade única
à você, cliente especial.
Atenciosas saudações
Imprimo só uma folha e xeroco o resto, é mais rápido. Deixo a máquina trabalhar sozinha. Saio, tomo café, fumo. Volto e vejo que saiu uma porcaria. Mancha preta na folha inteira. Borrão. De cima pra baixo, em todas as folhas. Vou ter que fazer de novo.

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A mocinha do restaurante me pergunta se quero frango ou peixe. Prefiro carne vermelha. Boi. Vaca. Legal comer um bicho maior que nós, mais forte. O nosso poder. Somos onipotentes. Somos deus. O alto da cadeia alimentar. Nós mandamos nos bichos. Comemos os bichos. Quero os dois. Ela sorri. Deve ter uns vinte anos, muito magra. Sento, como. Ela ainda sorri pra mim. É muito magra.

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tivesse mais
carne no corpo dela
comia inteira

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Sempre acho bons lugares no ônibus. Em pé dá pra ver bem quem tá sentado. Os peitos dela tentam fugir do decote. São bebês gêmeos. Balançam com o ônibus. Têm o ritmo do meu coração pulsando. Meu pau pulsando. Eles sobem, eles descem. Um puta tesão. Queria ter controle. O ônibus para. Ela desce.

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Alô.
Oi.
Oi, tudo bem, mãe?
Eu tô, e você?
Sim.
Liguei só pra dar um oi.
Hum.
Hum, tá tudo bem com você?
Já disse que sim.
Então tá, só queria ver como você tava. Tchau.
Tchau.

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Tem um salame na geladeira. A única coisa. Nunca tem nada. Se tem, estraga. O salame demora pra estragar. Vou ao mercado e compro lasanha. Bolonhesa. Cinco minutos no microondas e tá pronta. Antes só existia o miojo. Tem uma piada sobre isso. As sete maravilhas do mundo são o microondas, máquina de lavar, anticoncepcional, peitos, cigarro... não chegam a sete. A lasanha é nojenta, tem gosto de sebo. Não dá pra comer. Engulo um pouco e deixo em cima da mesa. Essa lasanha não é uma maravilha. 

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Um cara vai no médico e depois de fazer um monte de exames pergunta ao doutor: E então, o que eu tenho? O médico manda ele sentar e diz: Olha, seu caso é grave. Você tem pouco tempo de vida. O cara fica desesperado e pergunta: Quanto tempo, doutor? E ele responde: Cinco minutos. O cara se desespera, coloca as mãos na cabeça e pergunta: E o senhor não pode fazer nada por mim? Daí o médico responde: Em cinco minutos?! Posso fazer um miojo.

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Puta cheiro de mijo nesse colchão.

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A garantia não cobre:
1. Presença de mofo após 3 meses de uso.
2. O amarelamento do tecido ou espuma, pois é causado pela luz, sendo, portanto um processo natural.
3. As alças do colchão não foram projetadas para suportar o peso total do mesmo, por isso, o colchão não poderá ser erguido por elas. Utilize-as apenas para posicionar o colchão sobre a cama.
4. A garantia do produto não cobre a preferência de conforto do cliente. Sendo assim, preferências de maciez ou firmeza do produto devem ser verificadas no ato da compra.
5. Manchas, sujeiras, urinas e/ou queimaduras nos tecidos, perde a garantia em sua totalidade.
6. Uso da base ou cama inadequada, que deverá ser utilizada unicamente para sustentação do colchão.

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A casa é velha, deve ser mais velha que eu. As paredes são de madeira que apodreceu faz tempo. Quanto mais decadente é a casa, mais barato é o aluguel. É uma relação simples de causa e efeito.

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Ele deve ter passado por algum buraco na parede. Deve ser enorme, um bicho pequeno não consegue arrastar aquela lasanha. Não comi quase nada, a embalagem tava bem pesada. É um rato bem forte. Acho que é uma ratazana. Tem gordura artificial com molho bolonhesa no chão inteiro da cozinha. Talvez a gordura seja natural, acho difícil. Infestou a casa inteira com aquele cheiro de queijo. Fede igual a chulé.
 
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Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico, gordura vegetal, reguladores de acidez carbonato de potássio e carbonato de sódio, estabilizantes tripolifosfato de sódio, fosfato monossódico e pirofosfato tetrassódico, corante sintético idêntico ao natural beta-caroteno, sal, açúcar, amido condimento, extrato de levedura, gordura bovina, alho, cebola, salsa, carne bovina, realçadores do sabor de glutamato monossódico e inosinato dissódico, aromatizantes, antumectante dióxido de silício, corante natural cúrcuma e acidulante ácido cítrico. Contém glúten. Contém soja e aipo. Contém traços de leite, ovos e mostarda.   
Peso líquido 500g.
Nova formula. Experimente!   

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Pego o ônibus com uma mulher de muletas todo dia. Sempre que passa por uma igreja, ela faz o sinal da cruz. Ofereço meu lugar. Ela senta. Só de sacanagem puxo assunto. Depois deixo ela falar. Só concordo. A mulher fala do filho estudando, do marido tentando se aposentar, da filha manicure e garçonete. Tento fazer ela se distrair. Só pra ver se esquece de fazer o sinal da cruz. Mas não esquece.

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proposta a Cristo
livra-nos do pecado
que te matamos

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Quando eu era menino lia pra cacete. Aquelas coleções infantojuvenis. Gibi. Hoje só leio umas bobagens. Sem importância. Penso nuns haicais. Quando lembro, escrevo num papel postit. Aqueles que grudam. Deixo em qualquer lugar.

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Ela olhando pra mim. Sorrindo toda vez. Todo dia no restaurante. Na hora do almoço. É muito magra. Não tem nada de carne. Me faz perder a fome.

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ratazana. [Aum. anômalo de rata1.] S. F. 1. Zool. Rata1 (1). 2. Zool. Mamífero roedor, murídeo (rattus norvegious), cosmopolita, mais comum na região litorânea do Brasil. Dorso cinzento-amarelado, ventre mais claro, dorso e garganta brancos. Mede cerca de 20cm de cabeça e corpo, e 18cm de cauda. Começa a procriar com três ou quatro meses, pare de quatro a cinco vezes por ano, de cinco a 15 filhotes, e o período de gestação é de 21 dias. Pesa, em média, de 250 a 400g. É onívoro, de hábitos semi-aquáticos, prefere viver em locais com cursos de água, pântanos, esgotos, etc., e cava galerias no solo. [Sin., nesta acepç.: ratona, rato-de-esgoto, rabo-de-couro, arganaz.] 3. Ratona (2). S. 2 g. 4. Fig. Pessoa ridícula ou divertida. 5. Bras. Gír. Ladrão, ladra.

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Sábado não tem o que fazer. Ligo a tv. Ligo o rádio, desligo. Ligo a tv. Monto um quebra-cabeça. Desmonto, guardo. Limpo a casa. Lavo a roupa. Vou ver umas vitrines. Conto dinheiro. Compro uma camisa. Uma calça. Volto pra casa. Ligo a tv. Desligo. Ligo a rádio.

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Olho em baixo, atrás da pia. Da geladeira. Do armário. Do fogão. Arrasto. Tem um buraco no meio de duas tábuas. Madeira podre. Buraco grande. Foi por aqui que ele entrou. O bicho. Tem mais buracos, na casa inteira. Não tem problema, são pequenos. Fácil arrumar. Pego um pedaço de tábua. Quatro pregos. Fica um buraquinho. Só passa a luz. Buraco menor que os outros. Pronto.

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rato1. [Do lat. Rattu, tax. Rattus.] S. m. 1. Zool. Gênero dos mamíferos roedores, murídeos, que apresentam os molares sempre cuspidados, sendo as cúspides dispostas em três séries em relação ao eixo longitudinal. [Cf. mus (1).] 2. Zool. Qualquer espécie desse gênero, como, p. ex., a Rattus rattus (v. rato-preto), a mais típica. 3. Zool. Qualquer espécie desse gênero. 4. Zool. Impr. Designação comum aos histricomorfos (q. v.) de pequeno porte e com pilosidade rija. 5. Ant. Pedras com arestas muito

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Alô.
Oi.
Oi, tudo bem, mãe?
Eu tô, e você?
Sim.
Liguei pra te convidar pra almoçar aqui.
Já comi.
Vem à tarde, então. Pra tomar um café.
Tenho um compromisso.
Ah, que pena. E à noite?
Se não chegar tarde eu passo aí.
Vou te esperar.
...
Então tá, tchau.
Tchau.
Vou te esperar, tá?
Tá. Tchau.
Tchau.

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estou preso a ela
amarrado por sangue
morte nos separe

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É uma casa grande. Estilo colonial. Tem um lago na frente. O lago não faz sentido por causa da cachoeira. Ela não leva a lugar nenhum, a água cai pela cachoeira e continua ali. Mas é uma imagem bonita. No fundo tem umas montanhas verdes, cobertas de mato. O terreno é um gramado enorme. Grande mesmo. Umas vinte vacas espalhadas. Uns pontinhos que devem ser galinhas ou patos. Não dá pra ter certeza. Dois cachorros correm pela grama. Parecem dálmatas. Na parte do lago que fica mais longe tem três cavalos. Dois brancos e um marrom. Um branco toma água do lago, o outro não. O marrom não tem como saber. Na caixa está escrito que são cinco mil peças. Faltaram duas. São quatro mil novecentas e noventa e oito. Uma peça é um pedaço da casa. Do telhado. Não faz falta. A outra guarda o segredo do cavalo marrom. Devia ter a cabeça do bicho abaixada pra tomar água, ou levantada. Sem tomar. Já olhei a imagem que tem na caixa, aquelas que vêm na tampa pra ajudar montar. E pra deixar a caixa bonita. A imagem é menor. Distorcida. Não dá pra saber. Era o último quebra-cabeça que tinha na loja. Nunca vou saber se o cavalo marrom bebe água ou não. 

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A nova estagiária da empresa é muito gostosa. Coxas grossas. Boca tesuda. E peitos. Peitos grandes. Ela passa, os peitos balançando. E deixa o cheiro do cigarro. Sai do cabelo. Misturado com um cheiro de xampu, condicionador, creme, sei lá, de chocolate. Deve ser de chocolate. O cigarro é mais forte. Cheiro bom. Dá vontade de fumar.

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tradicional do Japão, o haicai é um terceto sem rima. Composto por dezessete sílabas: cinco no primeiro verso, sete no segundo, cinco no terceiro (5-7-5). Todavia, sua forma pode variar bastante segundo cada idioma. Vejamos outro exemplo de Bashô:

esgoto acerbo
sua garganta serosa
engana o rato

Há uma ampla discussão sobre suas possibilidades de tradução, sobretudo devido à métrica e ao sentido, que, naturalmente, pode vir a ser perdido ao traduzi-lo. Atualmente, o haicai caracteriza-se mais pela concisão que pelo tradicional “modelo 5-7-5”. No exemplo supracitado

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Fumar faz mal pra saúde. Todo mundo sabe. Eu sei. Olho pro cigarro. Parece inofensivo. Já tá quase no filtro. O copo de café acabou. Descartável. Deixo a bituca acesa no chão. Entro na cantina. Encho outro copo. Volto e acendo mais um cigarro naquele que deixei no chão. Bom matar o trabalho fumando. Só falta a estagiária peituda.

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O Mickey é um rato. Um rato que tem um cachorro. O Pluto é um cachorro estúpido. O Mickey é um personagem inteligente, o mais esperto da Disney. O Donald é um pato ranzinza. O Pateta é um completo idiota. Não sei que bicho o Pateta é. Lembro que tem um episódio que o Pluto fala. Ele é um tipo de esnobe inglês. Qualquer coisa assim.

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Ligo a tv. Comercial. Novela. Futebol. Comerciais. Um desenho animado. Programa cultural. Comercial. Jornal. As notícias de sempre. E uma baleia encalhou na praia. Tentaram tirar de lá. Mas morreu.

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Uma noite quente pra cacete. Não consigo dormir direito. Cheio de pernilongo. Cochilo um pouco. Acordo com um tapa que me dei na cara. Ato-reflexo pra matar esses bichos. Suado. O lençol grudado em mim. Um barulho de sacola na cozinha. A casa é barulhenta mesmo. Casa podre. O barulho continua. Muito quente. Acendo a luz. Acaba o barulho. O bicho voltou.

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rato2. [Do lat. ratu.] Adj. Confirmado, reconhecido, ratificado.

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Tem outro episódio que o Tom quer dormir. O Jerry tem uma banda de blues e toca debaixo da casa. Ele entra num bar, usando um chapéu e fumando, com uma namorada loira. Encontra uns amigos e bebe. Toma um martini. Dá uns beijos na loira. A banda se reúne. O Jerry é o baterista, o mais barulhento. Eles começam a tocar e o Tom acorda. Assustado. É tanto barulho que a cama fica balançando e ele cai. Não lembro direito o que acontece, mas é um puta episódio. Sei que o Tom não consegue dormir. A noite inteira. Aquele barulho. Só quando já tá amanhecendo é que o Jerry volta pra casa. Vai descansar. No final o Tom tá acabado. Olheiras. O olho vermelho. Cheio daquelas veias de sangue. No final acontece alguma coisa. Não lembro mais.

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Levanto, vou à cozinha. Nada. Abro a porta da lavanderia, uma zona. O lixo de duas semanas. Sempre me esqueço de por pra fora, pro lixeiro levar. Tudo revirado. Umas seis, sete sacolas rasgadas. Restos de frango podre. De macarrão. De feijão enlatado. De vidros de conserva. De um copo quebrado. De latas. De caixas. De embalagens. De papel higiênico usado. De filtros de café. De pó de café.

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A empresa exige boa aparência dos funcionários. Todos temos que nos vestir do jeito certo. O chefe tem. Eu tenho. A estagiária tem. Ela não pode usar saia pra cima do joelho. Não pode usar decote. O que é uma pena. Fico imaginando aqueles peitos com decote. Ela usa uma correntinha dourada. Daquelas com uma cruz.

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feliz é Jesus
crucificado entre
os peitos dela

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Tenho que dar um jeito de matar aquele bicho. Tá deixando a casa uma nojeira do cacete. Vem do esgoto. Sei lá de onde, trazer a imundície pra minha casa. Bicho cheio de doença. Vou pegar o desgraçado. Uma ratoeira resolve. Vou comprar uma. Uma grande. Onde será que acho uma ratoeira?

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Um grande número de clientes chega à nossa empresa através da Lista Telecomunicações. A qualidade da Lista é ótima. Se você precisa de alguma coisa, é só abrir a Lista Telecomunicações que vai encontrar. Sabemos que nosso anúncio está acessível a todo nosso público, correspondendo às nossas expectativas. Em nome da Soluções Práticas, quero parabenizar a Equipe Lista Telecomunicações pela competência, seriedade e profissionalismo.    

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A ratoeira é armada com um suculento pedaço de queijo. É colocada pra dentro de um buraco na parede. Ali é a casa dele. O Tom sempre esquece e enfia a mão no buraco. A ratoeira desarma na mão dele. Às vezes no rabo. Virou uma piada repetitiva no desenho. Acho que só o Jerry ainda se diverte com isso.

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ratoeira. [De rato1 + -oeira.] S. f. 1. Armadilha para capturar ratos. 2. P. ext. V. armadilha (2). 3. Bras. SC Dança e canção populares, acompanhadas à viola. Cair na ratoeira. V. cair na esparrela.

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Informações, boa noite. Em que posso ajudá-lo?
Quero saber onde compro uma ratoeira.
Perdão, não estou entendendo, senhor.
Perguntei onde compro uma ratoeira.
Desculpa, mas acho que o senhor se enganou, não estamos tendo esse tipo de informação.
Então por que o nome dessa porcaria é Informações?
Sinto muito, senhor.
Me diz uma coisa.
Sim, pode falar, senhor.
Onde você acha que tem ratoeira pra vender?
Não sei, senhor. Quem sabe em algum pet shop.
Pet shop é pra quem quer cuidar dos bichos, não pra quem quer matar.
Então, sinto muito, senhor, não sei dizer.

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Não consigo dormir. Não adianta. Sem sono. Irritado. Aquele bicho solto aqui em casa. Fico o dia inteiro fora. A casa é dele. Pra fazer o que quiser. Mas à noite é minha. Devia ser minha. Eu pago o aluguel dessa merda. Tenho que dormir. Desperdiço o meu tempo com a casa, dormindo. Não. Vou ficar acordado. Esperando o bicho vir.

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Uma vez vi o vizinho sair correndo com uma vassoura na mão. Começou a espancar um saco de lixo que tava no chão. Bizarro. Parecia louco. Bateu até quebrar o cabo. Fiquei impressionado. Quando ele parou de bater, cheguei perto. Ele cutucou o saco com o toco. Uma ratazana se arrastou pra fora do saco. Escorrendo sangue. Tonta, meio morta. O vizinho fincou o cabo na barriga do bicho, até cravar na terra. Olhou pra mim. Fez cara de campeão e disse Matei. 

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encontrado morto no final da manhã de ontem nas proximidades de uma fábrica de produtos de limpeza. O corpo estava envolto em um saco plástico e foi localizado por uma moradora da região em razão do mau cheiro. A moradora disse ter estranhado o cheiro que vinha do bosque ao lado da fábrica. Pouco antes do meio dia, percebeu que o odor vinha de um grande saco de lixo e acionou as autoridades.
  
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Vou à lavanderia e pego o lixo do balde. Tinha tampado com a esfregadeira pro rato não entrar. Agora, que ele venha. Acho as coisas mais fedorentas no balde. Comida velha. Tudo meio podre. Coloco dentro de uma sacola grande e deixo no meio da cozinha. A sacola aberta. Abertura pequena. Só pra ele entrar, não pra sair. Pego a vassoura. Apago a luz e vou pro quarto. Sem sono. Sento e fico esperando.

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Não consigo achar ratoeira nessa cidade. Uma cidade sem ratoeiras. Não tem problema. Penso em um milhão de jeitos de matar. Bem mais divertidos. Não quero acordar e ver que ele morreu. Preso numa ratoeira. Não. 

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Acordo com o despertador. Sentado na cama. Dor nas costas. Com a cara encostada no guarda-roupa. Dormi e não vi se ele veio. Não devia ter apagado a luz. Estico o corpo na cama, me contorço, dói tudo. Puta cheiro de mijo nesse colchão. Não dá pra dormir sentado, acabou com a minha coluna. Levanto, olho a sacola. Que fedor. Comida podre. Ele não veio. Jogo a sacola dentro do balde e tampo. Tenho que ir pro trabalho. Tomo banho. Saio sem café.

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Tava sonhando com a estagiária e acordei. Na frente do computador. Com a cara apoiada na mão. O cotovelo fincado no teclado. Cochilei. Sono do cacete. Devia ter dormido de noite. O corpo moído. Vou ao banheiro, jogo água no rosto pra ver se acordo um pouco. Vou à cantina, tomo um café, fumo. Não tem jeito. Vai ser um dia de merda.

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CÂNCER
A partir de hoje sua vida entra numa nova fase, é um ótimo período do ano para avaliar o que realizou de melhor em termos profissionais. E também é uma oportunidade fantástica de se sensibilizar para o amor, há uma forte possibilidade de encontrar a pessoa que o leve a habitar um mundo mais bonito e espiritual. A realização pessoal é um objetivo que está a ponto de ser conquistado, só depende de você. Fique de bem consigo mesmo.

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Tem tudo no mercado. Só não tem ratoeira. Volto pra casa lendo a caixa de veneno. A embalagem diz que é granulado e tem sabor e aroma que atraem roedores, posso deixar em algum canto que o bicho vem e come. Diz que, se eu achar melhor, também posso dissolver em água e mergulhar alguma comida para servir de isca. 

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ATENÇÃO
Em hipótese alguma ingira este produto. Conserve fora do alcance das crianças e dos animais domésticos. Evite contato com os olhos. Em caso de contato com os olhos, lave imediatamente com água em abundância. Não inalar. Em caso de ingestão, não provoque vômito e consulte imediatamente o Centro de Intoxicações ou o médico levando a embalagem do produto. Não dê nada por via oral a uma pessoa inconsciente. Evite o contato prolongado com a pele. Depois de utilizar este produto, lave bem e seque as mãos. Mantenha o produto em sua embalagem original em local seco e fresco. A embalagem fechada conserva as propriedades do produto. Não reutilize as embalagens vazias.    

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A única coisa que tem na geladeira é um salame. Um salame, mais nada. Pego uma lata de massa de tomate. Vazia. Encho com água, coloco o veneno. Enfio o salame dentro. Deixo a lata em cima do armário pra absorver bem. Pro veneno penetrar.

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Os verbetes foram retirados do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. 3. ed. Curitiba: Positivo, 2004.

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Coloco as sacolas na mesa. Não gosto de fazer compra. Nunca sei o que comprar. Tem merda daquele bicho em baixo da mesa. E sei lá mais onde. Bicho nojento. Enchendo minha casa de merda. Quando eu pegar, ele vai ver o que é uma merda. O veneno tem um cheiro forte. Irrita o nariz. Espirro.

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A estagiária me pergunta se tenho fogo. Se fosse um idiota diria que tenho muito. Não digo. Acendo o cigarro. Ela puxa assunto. Quer saber se gosto de trabalhar aqui. É bom. Nem pergunto nada e ela responde que só vai ficar até terminar a faculdade, depois... Depois não presto mais atenção. Os peitos. Olham pra mim. Biquinhos me hipnotizando. Apontando. Querendo furar meu olho. Isso não pode ficar escondido do mundo atrás da roupa.

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E também é uma oportunidade fantástica de se sensibilizar para o amor, há uma forte possibilidade de encontrar a pessoa que o leve a habitar um mundo mais bonito e espiritual.

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Vou prender o bicho no forno e acender o gás. Quero ver os pelos queimarem, sentir aquele cheiro. Ele vai morrer devagar. Bem devagar. Vou deixar o fogo no mínimo. Ele vai tentar fugir, se debater, se jogar no vidro. Vou deixar a luz do forno acesa e ver tudo.

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Asse (forno a 180° C) de acordo com tempo previsto para cada fôrma. Não abra o forno antes de 30 minutos de cozimento. Para verificar se está assado, espete um palito quando estiver dourado. Se sair limpo, está pronto. Retire do forno, deixe esfriar por 15 minutos, desenforme e sirva.

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Os caras comem tudo que veem pela frente. Na China, acho que é na China, eles comem gafanhoto e formiga. Comem cachorro também. Tem outro lugar, a Tailândia acho, que comem até escorpião frito. Em compensação, aquele negócio de massagem sexual vem de lá.

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Os dentes dela são bonitos. Bem brancos. Ela não fuma. Não deve fumar. Dentes de aparelho. Uniformes. Boca pequena. Quase não tem lábios. Parece só um corte no meio da cara. Uma navalhada. Ela sempre tem que me mostrar esses dentes? Coitada, não tem nada de carne. Isso é um restaurante tinha que ter carne. Chega a dar pena olhar pra esses bracinhos. Uma menina de onze anos tem mais peito que ela. O que me enche o saco é ela se oferecendo pra mim. Esses peitinhos. Devem ter uns biquinhos escuros, quase pretos. Duros. Duas tetinhas de cadela. 

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E também é uma oportunidade fantástica de se sensibilizar para o amor, há uma forte possibilidade de encontrar a pessoa que o leve a habitar um mundo mais bonito e espiritual
só depende de você   

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Deixei as sacolas na mesa. Merda. Não guardei. Quando chegar em casa o bicho vai ter mexido em tudo. Cheio de merda dele. Comido o que eu comprei. A compra do mês. Infectado tudo com a imundície. Com doença do esgoto. Não vai ter como aproveitar porcaria nenhuma. Como se a casa fosse dele. Merda pra todo lado. De dia é só dele. Entra e sai quando quer. Sei lá por onde. Tampei o buraco. Ele cavou outro.  

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rato-caseiro. [De rato1 + caseiro.] S. m. Bras. Zool. 1. V. rato-preto. 2. V. rato-pardo. [Pl.: ratos-caseiros.]

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Ele não veio hoje. Tá tudo aqui. Nem mexeu na compra. Não foi tocada. Igual a mocinha do restaurante. Aquelas tetinhas. Guardo no armário. Na

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Alô.
Oi.
Oi, tudo bem, mãe?
Eu tô, e você?
Sim.
Hum, acho que liguei errado.
...
Faz tempo que você não vem aqui.
Você não disse que tinha ligado errado?
Disse, eu ia ligar pra uma amiga.
Eu tô ocupado, fazendo umas coisas.
O número tá na memória, disquei errado.
Então tá, tchau.
Tchau.

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Na geladeira. Pronto, tudo limpo. Guardado. Arrumo qualquer coisa pra comer. Tiro a sacola de lixo do balde. Cheiro de comida azeda. Podre. Coloco no meio da cozinha. Pego a vassoura. Vou pro quarto. Deito, ligo a tv e deixo sem volume. Venha, meu amigo. Qualquer barulhinho eu vou estar aí. Te arrebentando com a vassoura. Tô te esperando. Venha.

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Aquele salame com veneno. Uma covardia. É apetitoso, parece gostoso. Até eu tenho vontade de comer aquilo. Se eu coloco o salame pra ele comer, ele come. Morre em qualquer canto. Não vou saber se morreu mesmo. Nunca vou saber. O que eu tinha na cabeça? Pensar em dar veneno pra ele. Ideia idiota. Ele morre debaixo da casa, fica um fedor de carniça. Não. Nada de envenenar. Tem que ser de outro jeito. 

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há quanto tempo
não faço um bom haicai
culpa do bicho

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Acordo. A tv ligada. Faixas coloridas na tela. Um arco-íris no meu quarto. Desligo. Olho o relógio. Daqui a pouco já desperta. Quase hora de levantar. Parece que tô pior do que deitei. Cachorros latem na rua. Me estico, levanto. Cansado pra cacete. Esfrego os olhos. A vassoura do lado da cama. Vassoura? Droga, eu dormi. Me esqueci do bicho.

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Dor nas costas. Trabalhar o dia inteiro sentado acaba comigo. Mãos formigando. Câimbra nas pernas. Sem sono. Só cansado. Estralo os dedos. Já fumei muito hoje, café demais. Se eu faço outro intervalo o chefe me enche o saco. Ano passado vieram com um papo de ginástica laboral. Aqui na empresa. Era patético. Três, quatro vezes por dia a gente levantava e saía pulando. Tinha uma gorda que parecia um coelho de páscoa. Ridícula. Todo mundo se alongando. Os velhos suavam. Molhavam a camisa. A porcaria não deu certo.

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Faz bem saber: A prática de atividades físicas juntamente com uma alimentação balanceada são indispensáveis para as crianças, pois contribuem para que sejam adultos com hábitos saudáveis.

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Será que ele não vem mais?

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Fome. Não comi direito ontem. Peguei qualquer coisa do armário hoje de manhã. Café com pão. Comida ruim. Pão amanhecido. Café barato. Instantâneo. Dá pra sentir litros de café aqui dentro. Fermentando na barriga. Um gás subindo pela garganta, saindo pela boca. Tenho que comer direito. Empurrar o café pra baixo. Deixei passar o horário de almoço. Não saí. Quais eram as carnes que a mocinha do restaurante ia me oferecer hoje?   

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E o que nós vamos fazer amanhã, Cérebro?
O mesmo que fazemos todas as noites, Pink: tentar dominar o mundo.

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A mesma coisa. Não adianta. Ele é esperto, não vem quando tô acordado. Não veio ontem, nem quando eu tava dormindo. Pode ser que não venha mais. Ponho o lixo pra fora. Pro lixeiro levar. Não preciso mais disso. Vou mudar o plano.

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Desligo o disjuntor da luz. Tiro a tampinha da tomada com uma faca. Não tenho chave de fenda. Puxo um fio e descasco. Puxo outro e descasco. Enrosco um fio numa tampa de panela. De alumínio. Enfio a ponta do outro fio dentro de uma lata de sardinha. Lata aberta. Coloco a tampa no chão. Coloco meu chinelo de borracha em cima da tampa. Coloco a lata de sardinha em cima do chinelo. A borracha do chinelo isola. Quando ele vier comer a sardinha vai fechar o curto-circuito. A corrente elétrica vai passar por ele da tampa da panela pra lata de sardinha. Um choque de cento e dez volts. Ele vai ficar preso pela corrente elétrica. Vai torrar. Eu o condeno, sua sentença é a morte. Vou sentir seu cheiro queimando. Mais forte que cheiro de sardinha.    

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Ele nunca aprendeu. Lá foi o Tom enfiar mão na toca do Jerry de novo. Sempre tinha uma ratoeira. Mas pra surpresa do telespectador, não nesse episódio. Foi uma piada um pouco melhor. O rato enganou o Tom e fez ele pegar nos fios da tomada. O gato se arrepiou todo, soltou um grito. Ficou piscando, aparecendo o esqueleto com aquele contorno preto. O Jerry rolou no chão de tanto rir. Acho que ele sempre divertia mais do que quem tava vendo o desenho.  

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Mentira. É tudo mentira. Eu nunca consegui fazer um haicai. Tem alguma coisa com as estações do ano. Eu só faço uns versinhos mais ou menos.

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O chefe me pergunta se tô com algum problema. Diz que pareço abatido. Que eu tô pálido. É que ando dormindo pouco. Nada, só estresse. Fala que preciso de uma folga pra relaxar. Me dá um cartão. Guardo no bolso sem olhar. Me manda passar um dias em casa, até me sentir melhor. Mas eu tô bem. Ele insiste, pelo menos uma semana, pra resolver os problemas. Ele é o chefe, tenho que obedecer. Levanto e saio. Vejo um zumbi refletido no vidro da janela. Eu. Agora entendo.

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A tv sem volume. Não pus mais. As mesmas notícias sempre. Não preciso ouvir. Presto atenção, sei o que acontece. Presto atenção se o bicho vem. Entra na minha casa. Eu ouço as coisas. O apresentador do jornal sorri. Uma sequência de imagens da África miserável. Os africanos sorriem com as costelas à mostra. Posso adivinhar o que locutor diz. Superpopulação de roedores ultrapassa a humana, o que pareceu inicialmente um problema se mostrou como a grande solução da baixa expectativa de vida entre os mais necessitados. São milhares de famílias felizes com estas iguarias. E a população atesta que o sabor é dos mais agradáveis. Close na cara de um menino esquelético que sorri. Corta. Muda pra outra notícia.



O resto da vida

Ele atravessou a porta correndo.
Pai, pai, já sei. Vou ser lixeiro.
Quando a gente pergunta a um filho o que ele será quando crescer, nunca espera uma pancada dessas. Deve fazer uma semana que o questionei, mas só queria que o menino pensasse.
Calma aí, filhão, não é assim. Você tem que pensar bem, as coisas não
Mas eu tenho certeza já, vou ser lixeiro.
Você quer dizer gari. O nome do profissional é gari.
Ah, tá.
As coisas não são desse jeito, filho. Você tem que pensar muito bem, porque quando decidir é pro resto da vida. E já pensou em como vai sustentar uma família com um salário de gari?
Mas eles ganham bem, eu vi na tv, eles recebem bem mais que o dinheiro que você me dá. 
Isso ainda, parecia até que eu estava sendo chantageado pelo próprio filho.
Acontece que você é só um menino, não precisa de muito dinheiro. E eu compro tudo pra você. O dinheiro que dou é pra aprender a administrar suas coisas.  
Eu sei, pai. Mas eles ganham bem. Passou na tv que tinha uma fila gigante de gente querendo ser lixeiro 
Gari.
É, isso. Tinha uma filona de gente pra trabalhar de gari. A mãe até disse nossa, tem até professor. 
Então tudo fez sentido, era óbvio que tinha o dedo de mais alguém nessa história, meu filho não pensaria numa coisa dessas sem uma mente maquiavélica pra ajudar.
Tudo bem, entendi. Isso é ideia da sua mãe, pra me provocar.
Não é, não. Eu pensei sozinho.
E posso saber por que decidiu ser gari?
Porque é legal.
Tá bom, é legal. Mas quero que explique por quê. Como você pensou nisso?
Eu tava brincando lá fora e daí tava passando o caminhão de lixo na rua e daí desceu um gari rindo do caminhão pra pegar o lixo da casa daquele homem que só tem cabelo aqui assim do lado e em cima é careca
O Almeida.
aquele que é seu amigo e daí ele pulou aquela cerca baixinha que tem lá e pegou um montão de saco que tinha lá e daí apareceu aquele cachorro manchado feio e o gari chutou ele e saiu correndo com aquele punhado de saco e pulou a cerquinha só que o caminhão já tava lá longe lá na esquina e ele ficou assobiando bem alto pro motorista não deixar ele pra trás mas eu acho que ele não ouviu porque ele não parou e daí o gari foi correndo e o outro gari amigo dele esticou o braço e puxou ele pra cima e daí o outro gari desceu e pegou mais um monte de saco e assobiou pra uma mulher bonita que tava lá na rua.
E só porque eles chutam cachorro, correm atrás de caminhão e ficam assobiando, por isso você quer ser lixeiro?
É gari, pai.
Sim, eu sei. Mas é por isso que você quer ser gari?
Não, pai. Eles se divertem e eles passam rindo e assobiando e eles trabalham lá fora na rua e não ficam só fechados no escritório e acho que eles ficam com os filhos e eles têm uma roupa colorida laranjada
Alaranjada.
e tem aqueles outros que tem uma roupa verde que também é bem legal e eles não usam só essas roupas escuras que nem você. Eles são alegres, pai.
Olhei pro relógio, em meia hora eu tinha que entregar um artigo.
Olha, filho, o pai tem que trabalhar agora, tá? Depois a gente conversa mais sobre isso, tá bom?
Ele saiu do escritório e eu corri com meu trabalho, terminei de redigir em cima da hora. Depois fui ao massagista, a poltrona tem acabado com a minha coluna.
Quando fui ver, o menino já tinha dormido. Fiquei pensando a respeito, e acho que eu estava errado, porque, se não me engano, gari é o profissional ocupado com a limpeza das ruas, o profissional que recolhe o lixo se chama lixeiro mesmo. Ainda não resolvemos a situação, mas comprei duas gravatas novas, uma alaranjada e outra verde.