O diabo rói meu calcanhar.
Não posso fazer nada. Ele levanta minha perna e torce, só pra eu ver o estrago.
O sangue escorre pelo tornozelo, coxa, virilha. Ele ri. Fecho os olhos. Abro, continua
escuro. Era mais um daqueles sonhos. Vontade de mijar. Tento levantar, as
pernas não respondem. Formigamento. Saco. Balanço os joelhos pra ver se
acordam. Que isso úmido na cama? As pernas molhadas. Que droga. Esse barulho.
Que porra é essa arranhando? Roc roc. Me arrasto na cama e acendo a luz. Acaba
o ruído. Lá fora passa um ônibus, um caminhão. Sei lá. Tremem os copos na pia
da cozinha. Mijei na cama. Com a minha idade aprontando uma dessas. Qual foi o
sonho? Não consigo mais dormir. Vou lembrar do que era. O colchão mijado tá
esfriando. O sol entra no quarto. Tenho que trabalhar.
.
Meu episódio preferido é um que o Tom vai pro inferno. O Jerry empurra um
piano pela escada. O Tom tá lá embaixo e morre. Fica o cadáver esticado no
chão, a alma sai e tenta voar. Umas asinhas bem pequenas. Vem uma mãozona
vermelha do chão, puxa o Tom pra baixo. Não lembro direito. Talvez não seja bem
assim. Faz tempo que vi esse episódio. Sei que ele vai parar no inferno. O
diabo é aquele buldogue enorme, o único personagem que fala. O buldogão fica
cutucando o Tom com um tridente pra ele não sair do caldeirão. Mas ele acaba
fazendo um pacto com o diabo. O Tom pega um papel. Um documento. E tem que
fazer o Jerry assinar dizendo que perdoa todas as maldades. O pilantra não quer
saber de assinar. Por mais que o Tom agrade. Explique a situação com umas
mímicas. Implore. Não tem jeito. O Jerry sacaneia no episódio inteiro. Até que
o buldogue aparece do chão com uma explosão de fogo e diz, Agora você vai ter que pagar, bichano.
Acho que o Jerry se assusta também e acaba assinando o papel. Daí é tarde
demais. Tinha um prazo. O Tom volta pro caldeirão. O buldogue vermelho ri. No
final o Tom acorda. Era mais um daqueles sonhos. Tão caindo umas brasas no rabo
dele. Acho que é mais ou menos isso. Não tenho certeza.
.
Penduro o lençol no varal, a vizinha me olha meio de atravessado e vem me
perguntar, Já cedo lavando roupa?
Devia dizer que meu horário não é problema seu, mas não digo.
.
É uma merda quando passa o trem. Não é porque o ônibus tem que parar e
esperar. Não é o apito. Não são os vagões se arrastando um trás do outro. Não é
a ansiedade de que termine logo. É a cara das pessoas. Parece que perderam um
jogo. Campeões olímpicos velhos. Na última disputa. Sem glória. Vencidos. Um
velhinho olha pela janela, balança a cabeça e fala Ah, não.
.
No trabalho mal terminei aqueles papéis e mandaram outros. Tenho que
fazer quatrocentos e trinta e cinco cópias de cada. Sempre faço mais pra
garantir.
Prezado(a) Senhor(a)
Nossa empresa gostaria de propor
é de interesse de todos
uma oportunidade única
à você, cliente especial.
Atenciosas saudações
Imprimo só uma folha e xeroco o resto, é mais rápido. Deixo a máquina
trabalhar sozinha. Saio, tomo café, fumo. Volto e vejo que saiu uma porcaria.
Mancha preta na folha inteira. Borrão. De cima pra baixo, em todas as folhas.
Vou ter que fazer de novo.
.
A mocinha do restaurante me pergunta se quero frango ou peixe. Prefiro
carne vermelha. Boi. Vaca. Legal comer um bicho maior que nós, mais forte. O
nosso poder. Somos onipotentes. Somos deus. O alto da cadeia alimentar. Nós mandamos nos
bichos. Comemos os bichos. Quero os dois. Ela sorri. Deve ter uns vinte anos,
muito magra. Sento, como. Ela ainda sorri pra mim. É muito magra.
.
tivesse mais
carne no corpo dela
comia inteira
.
Sempre acho bons lugares no ônibus. Em pé dá pra ver bem quem tá sentado.
Os peitos dela tentam fugir do decote. São bebês gêmeos. Balançam com o ônibus.
Têm o ritmo do meu coração pulsando. Meu pau pulsando. Eles sobem, eles descem.
Um puta tesão. Queria ter controle. O ônibus para. Ela desce.
.
Alô.
Oi.
Oi, tudo bem, mãe?
Eu tô, e você?
Sim.
Liguei só pra dar um oi.
Hum.
Hum, tá tudo bem com você?
Já disse que sim.
Então tá, só queria ver como você tava. Tchau.
Tchau.
.
Tem um salame na
geladeira. A única coisa. Nunca tem nada. Se tem, estraga. O salame demora pra
estragar. Vou ao mercado e compro lasanha. Bolonhesa. Cinco minutos no
microondas e tá pronta. Antes só existia o miojo. Tem uma piada sobre isso. As
sete maravilhas do mundo são o microondas, máquina de lavar, anticoncepcional,
peitos, cigarro... não chegam a sete. A lasanha é nojenta, tem gosto de sebo.
Não dá pra comer. Engulo um pouco e deixo em cima da mesa. Essa lasanha não é
uma maravilha.
.
Um cara vai no médico e depois de fazer um monte de exames pergunta ao
doutor: E então, o que eu tenho? O médico manda ele sentar e diz: Olha, seu
caso é grave. Você tem pouco tempo de vida. O cara fica desesperado e pergunta:
Quanto tempo, doutor? E ele responde: Cinco minutos. O cara se desespera,
coloca as mãos na cabeça e pergunta: E o senhor não pode fazer nada por mim?
Daí o médico responde: Em cinco minutos?! Posso fazer um miojo.
.
Puta cheiro de mijo nesse colchão.
.
A garantia não
cobre:
1. Presença de
mofo após 3 meses de uso.
2. O
amarelamento do tecido ou espuma, pois é causado pela luz, sendo, portanto um
processo natural.
3. As alças do
colchão não foram projetadas para suportar o peso total do mesmo, por isso, o
colchão não poderá ser erguido por elas. Utilize-as apenas para posicionar o
colchão sobre a cama.
4. A garantia do
produto não cobre a preferência de conforto do cliente. Sendo assim,
preferências de maciez ou firmeza do produto devem ser verificadas no ato da
compra.
5. Manchas,
sujeiras, urinas e/ou queimaduras nos tecidos, perde a garantia em sua
totalidade.
6. Uso da base
ou cama inadequada, que deverá ser utilizada unicamente para sustentação do
colchão.
.
A casa é velha, deve ser mais velha que eu. As paredes são de madeira que
apodreceu faz tempo. Quanto mais decadente é a casa, mais barato é o aluguel. É
uma relação simples de causa e efeito.
.
Ele deve ter passado por algum buraco na parede. Deve ser enorme, um
bicho pequeno não consegue arrastar aquela lasanha. Não comi quase nada, a
embalagem tava bem pesada. É um rato bem forte. Acho que é uma ratazana. Tem
gordura artificial com molho bolonhesa no chão inteiro da cozinha. Talvez a
gordura seja natural, acho difícil. Infestou a casa inteira com aquele cheiro
de queijo. Fede igual a
chulé.
.
Farinha de trigo
enriquecida com ferro e ácido fólico, gordura vegetal, reguladores de acidez
carbonato de potássio e carbonato de sódio, estabilizantes tripolifosfato de
sódio, fosfato monossódico e pirofosfato tetrassódico, corante sintético
idêntico ao natural beta-caroteno, sal, açúcar, amido condimento, extrato de
levedura, gordura bovina, alho, cebola, salsa, carne bovina, realçadores do
sabor de glutamato monossódico e inosinato dissódico, aromatizantes, antumectante
dióxido de silício, corante natural cúrcuma e acidulante ácido cítrico. Contém
glúten. Contém soja e aipo. Contém traços de leite, ovos e mostarda.
Peso líquido
500g.
Nova formula.
Experimente!
.
Pego o ônibus com uma mulher de muletas todo dia. Sempre que passa por
uma igreja, ela faz o sinal da cruz. Ofereço meu lugar. Ela senta. Só de
sacanagem puxo assunto. Depois deixo ela falar. Só concordo. A mulher fala do
filho estudando, do marido tentando se aposentar, da filha manicure e garçonete.
Tento fazer ela se distrair. Só pra ver se esquece de fazer o sinal da cruz.
Mas não esquece.
.
proposta a Cristo
livra-nos do pecado
que te matamos
.
Quando eu era menino lia pra cacete. Aquelas coleções infantojuvenis.
Gibi. Hoje só leio umas bobagens. Sem importância. Penso nuns haicais. Quando
lembro, escrevo num papel postit. Aqueles que grudam. Deixo em qualquer lugar.
.
Ela olhando pra mim. Sorrindo toda vez. Todo dia no restaurante. Na hora
do almoço. É muito magra. Não tem nada de carne. Me faz perder a fome.
.
ratazana. [Aum. anômalo de rata1.]
S. F. 1. Zool. Rata1 (1). 2. Zool. Mamífero roedor, murídeo (rattus norvegious), cosmopolita, mais comum na região
litorânea do Brasil. Dorso cinzento-amarelado, ventre mais claro, dorso e garganta
brancos. Mede cerca de 20cm de cabeça e corpo, e 18cm de cauda. Começa a
procriar com três ou quatro meses, pare de quatro a cinco vezes por ano, de
cinco a 15 filhotes, e o período de gestação é de 21 dias. Pesa, em média, de
250 a 400g. É onívoro, de hábitos semi-aquáticos, prefere viver em locais com
cursos de água, pântanos, esgotos, etc., e cava galerias no solo. [Sin., nesta
acepç.: ratona, rato-de-esgoto,
rabo-de-couro, arganaz.] 3.
Ratona
(2). S. 2 g. 4. Fig. Pessoa ridícula ou
divertida. 5. Bras. Gír. Ladrão, ladra.
.
Sábado não tem o que fazer. Ligo a tv. Ligo o rádio, desligo. Ligo a tv.
Monto um quebra-cabeça. Desmonto, guardo. Limpo a casa. Lavo a roupa. Vou ver
umas vitrines. Conto dinheiro. Compro uma camisa. Uma calça. Volto pra casa.
Ligo a tv. Desligo. Ligo a rádio.
.
Olho em baixo, atrás da pia. Da geladeira. Do armário. Do
fogão. Arrasto. Tem um buraco no meio de duas tábuas. Madeira podre. Buraco
grande. Foi por aqui que ele entrou. O bicho. Tem mais buracos, na casa inteira.
Não tem problema, são pequenos. Fácil arrumar. Pego um pedaço de tábua. Quatro
pregos. Fica um buraquinho. Só passa a luz. Buraco menor que os outros. Pronto.
.
rato1. [Do lat. Rattu,
tax. Rattus.] S. m. 1. Zool. Gênero dos mamíferos roedores, murídeos, que apresentam
os molares sempre cuspidados, sendo as cúspides dispostas em três séries em
relação ao eixo longitudinal. [Cf. mus (1).] 2. Zool. Qualquer espécie
desse gênero, como, p. ex., a Rattus
rattus (v. rato-preto), a mais
típica. 3. Zool. Qualquer espécie desse gênero. 4. Zool. Impr. Designação
comum aos histricomorfos (q. v.) de pequeno porte e com pilosidade rija. 5. Ant.
Pedras com arestas muito
.
Alô.
Oi.
Oi, tudo bem, mãe?
Eu tô, e você?
Sim.
Liguei pra te convidar pra almoçar aqui.
Já comi.
Vem à tarde, então. Pra tomar um café.
Tenho um compromisso.
Ah, que pena. E à noite?
Se não chegar tarde eu passo aí.
Vou te esperar.
...
Então tá, tchau.
Tchau.
Vou te esperar, tá?
Tá. Tchau.
Tchau.
.
estou preso a ela
amarrado por sangue
morte nos separe
.
É uma casa grande. Estilo colonial. Tem um lago na frente. O lago não faz
sentido por causa da cachoeira. Ela não leva a lugar nenhum, a água cai pela
cachoeira e continua ali. Mas é uma imagem bonita. No fundo tem umas montanhas
verdes, cobertas de mato. O terreno é um gramado enorme. Grande mesmo. Umas
vinte vacas espalhadas. Uns pontinhos que devem ser galinhas ou patos. Não dá
pra ter certeza. Dois cachorros correm pela grama. Parecem dálmatas. Na parte
do lago que fica mais longe tem três cavalos. Dois brancos e um marrom. Um
branco toma água do lago, o outro não. O marrom não tem como saber. Na caixa
está escrito que são cinco mil peças. Faltaram duas. São quatro mil novecentas
e noventa e oito. Uma peça é um pedaço da casa. Do telhado. Não faz falta. A
outra guarda o segredo do cavalo marrom. Devia ter a cabeça do bicho abaixada
pra tomar água, ou levantada. Sem tomar. Já olhei a imagem que tem na caixa,
aquelas que vêm na tampa pra ajudar montar. E pra deixar a caixa bonita. A
imagem é menor. Distorcida. Não dá pra saber. Era o último quebra-cabeça que
tinha na loja. Nunca vou saber se o cavalo marrom bebe água ou não.
.
A nova estagiária da empresa é muito gostosa. Coxas grossas. Boca tesuda.
E peitos. Peitos grandes. Ela passa, os peitos balançando. E deixa o cheiro do
cigarro. Sai do cabelo. Misturado com um cheiro de xampu, condicionador, creme,
sei lá, de chocolate. Deve ser de chocolate. O cigarro é mais forte. Cheiro
bom. Dá vontade de fumar.
.
tradicional do Japão, o haicai é
um terceto sem rima. Composto por dezessete sílabas: cinco no primeiro verso,
sete no segundo, cinco no terceiro (5-7-5). Todavia, sua forma pode variar
bastante segundo cada idioma. Vejamos outro exemplo de Bashô:
esgoto acerbo
sua garganta serosa
engana o rato
Há uma ampla
discussão sobre suas possibilidades de tradução, sobretudo devido à métrica e
ao sentido, que, naturalmente, pode vir a ser perdido ao traduzi-lo.
Atualmente, o haicai caracteriza-se mais pela concisão que pelo tradicional
“modelo 5-7-5”. No exemplo supracitado
.
Fumar faz mal pra saúde. Todo mundo sabe. Eu sei. Olho pro cigarro.
Parece inofensivo. Já tá quase no filtro. O copo de café acabou. Descartável.
Deixo a bituca acesa no chão. Entro na cantina. Encho outro copo. Volto e acendo
mais um cigarro naquele que deixei no chão. Bom matar o trabalho fumando. Só
falta a estagiária peituda.
.
O Mickey é um rato. Um rato que tem um cachorro. O Pluto é um cachorro
estúpido. O Mickey é um personagem inteligente, o mais esperto da Disney. O
Donald é um pato ranzinza. O Pateta é um completo idiota. Não sei que bicho o
Pateta é. Lembro que tem um episódio que o Pluto fala. Ele é um tipo de esnobe
inglês. Qualquer coisa assim.
.
Ligo a tv. Comercial. Novela. Futebol. Comerciais. Um desenho animado.
Programa cultural. Comercial. Jornal. As notícias de sempre. E uma baleia
encalhou na praia. Tentaram tirar de lá. Mas morreu.
.
Uma noite quente pra cacete. Não consigo dormir direito. Cheio de
pernilongo. Cochilo um pouco. Acordo com um tapa que me dei na cara.
Ato-reflexo pra matar esses bichos. Suado. O lençol grudado em mim. Um barulho
de sacola na cozinha. A casa é barulhenta mesmo. Casa podre. O barulho
continua. Muito quente. Acendo a luz. Acaba o barulho. O bicho voltou.
.
rato2. [Do lat. ratu.] Adj. Confirmado,
reconhecido, ratificado.
.
Tem outro episódio que o Tom quer dormir. O Jerry tem uma banda de blues
e toca debaixo da casa. Ele entra num bar, usando um chapéu e fumando, com uma
namorada loira. Encontra uns amigos e bebe. Toma um martini. Dá uns beijos na
loira. A banda se reúne. O Jerry é o baterista, o mais barulhento. Eles começam
a tocar e o Tom acorda. Assustado. É tanto barulho que a cama fica balançando e
ele cai. Não lembro direito o que acontece, mas é um puta episódio. Sei que o
Tom não consegue dormir. A noite inteira. Aquele barulho. Só quando já tá
amanhecendo é que o Jerry volta pra casa. Vai descansar. No final o Tom tá
acabado. Olheiras. O olho vermelho. Cheio daquelas veias de sangue. No final
acontece alguma coisa. Não lembro mais.
.
Levanto, vou à cozinha. Nada. Abro a porta da lavanderia, uma zona. O
lixo de duas semanas. Sempre me esqueço de por pra fora, pro lixeiro levar.
Tudo revirado. Umas seis, sete sacolas rasgadas. Restos de frango podre. De macarrão.
De feijão enlatado. De vidros de conserva. De um copo quebrado. De latas. De
caixas. De embalagens. De papel higiênico usado. De filtros de café. De pó de
café.
.
A empresa exige boa aparência dos funcionários. Todos temos que nos
vestir do jeito certo. O chefe tem. Eu tenho. A estagiária tem. Ela não pode
usar saia pra cima do joelho. Não pode usar decote. O que é uma pena. Fico
imaginando aqueles peitos com decote. Ela usa uma correntinha dourada. Daquelas
com uma cruz.
.
feliz é Jesus
crucificado entre
os peitos dela
.
Tenho que dar um jeito de matar aquele bicho. Tá deixando a casa uma
nojeira do cacete. Vem do esgoto. Sei lá de onde, trazer a imundície pra minha
casa. Bicho cheio de doença. Vou pegar o desgraçado. Uma ratoeira resolve. Vou
comprar uma. Uma grande. Onde será que acho uma ratoeira?
.
Um grande número de clientes chega à nossa empresa através da Lista
Telecomunicações. A qualidade da Lista é ótima. Se você precisa de alguma
coisa, é só abrir a Lista Telecomunicações que vai encontrar. Sabemos que nosso
anúncio está acessível a todo nosso público, correspondendo às nossas
expectativas. Em nome da Soluções Práticas, quero parabenizar a Equipe Lista
Telecomunicações pela competência, seriedade e profissionalismo.
.
A ratoeira é armada com um suculento pedaço de queijo. É colocada pra
dentro de um buraco na parede. Ali é a casa dele. O Tom sempre esquece e enfia
a mão no buraco. A ratoeira desarma na mão dele. Às vezes no rabo. Virou uma
piada repetitiva no desenho. Acho que só o Jerry ainda se diverte com isso.
.
ratoeira. [De rato1 + -oeira.]
S.
f. 1. Armadilha para
capturar ratos. 2. P. ext. V. armadilha (2). 3. Bras. SC Dança e
canção populares, acompanhadas à viola. Cair
na ratoeira. V. cair na esparrela.
.
Informações, boa noite. Em que posso ajudá-lo?
Quero saber onde compro uma ratoeira.
Perdão, não estou entendendo, senhor.
Perguntei onde compro uma ratoeira.
Desculpa, mas acho que o senhor se enganou, não estamos tendo esse tipo
de informação.
Então por que o nome dessa porcaria é Informações?
Sinto muito, senhor.
Me diz uma coisa.
Sim, pode falar, senhor.
Onde você acha que tem ratoeira pra vender?
Não sei, senhor. Quem sabe em algum pet shop.
Pet shop é pra quem quer cuidar dos bichos, não pra quem quer matar.
Então, sinto muito, senhor, não sei dizer.
.
Não consigo dormir. Não adianta. Sem sono. Irritado. Aquele bicho solto
aqui em casa. Fico o dia inteiro fora. A casa é dele. Pra fazer o que quiser.
Mas à noite é minha. Devia ser minha. Eu pago o aluguel dessa merda. Tenho que
dormir. Desperdiço o meu tempo com a casa, dormindo. Não. Vou ficar acordado.
Esperando o bicho vir.
.
Uma vez vi o vizinho sair correndo com uma vassoura na mão. Começou a
espancar um saco de lixo que tava no chão. Bizarro. Parecia louco. Bateu até
quebrar o cabo. Fiquei impressionado. Quando ele parou de bater, cheguei perto.
Ele cutucou o saco com o toco. Uma ratazana se arrastou pra fora do saco.
Escorrendo sangue. Tonta, meio morta. O vizinho fincou o cabo na barriga do bicho,
até cravar na terra. Olhou pra mim. Fez cara de campeão e disse Matei.
.
encontrado morto
no final da manhã de ontem nas proximidades de uma fábrica de produtos de
limpeza. O corpo estava envolto em um saco plástico e foi localizado por uma
moradora da região em razão do mau cheiro. A moradora disse ter estranhado o
cheiro que vinha do bosque ao lado da fábrica. Pouco antes do meio dia,
percebeu que o odor vinha de um grande saco de lixo e acionou as autoridades.
.
Vou à lavanderia e pego o lixo do balde. Tinha tampado com a esfregadeira
pro rato não entrar. Agora, que ele venha. Acho as coisas mais fedorentas no
balde. Comida velha. Tudo meio podre. Coloco dentro de uma sacola grande e
deixo no meio da cozinha. A sacola aberta. Abertura pequena. Só pra ele entrar,
não pra sair. Pego a vassoura. Apago a luz e vou pro quarto. Sem sono. Sento e
fico esperando.
.
Não consigo achar ratoeira nessa cidade. Uma cidade sem ratoeiras. Não
tem problema. Penso em um milhão de jeitos de matar. Bem mais divertidos. Não
quero acordar e ver que ele morreu. Preso numa ratoeira. Não.
.
Acordo com o despertador. Sentado na cama. Dor nas costas. Com a cara
encostada no guarda-roupa. Dormi e não vi se ele veio. Não devia ter apagado a
luz. Estico o corpo na cama, me contorço, dói tudo. Puta cheiro de mijo nesse
colchão. Não dá pra dormir sentado, acabou com a minha coluna. Levanto, olho a
sacola. Que fedor. Comida podre. Ele não veio. Jogo a sacola dentro do balde e
tampo. Tenho que ir pro trabalho. Tomo banho. Saio sem café.
.
Tava sonhando com a estagiária e acordei. Na frente do computador. Com a
cara apoiada na mão. O cotovelo fincado no teclado. Cochilei. Sono do cacete.
Devia ter dormido de noite. O corpo moído. Vou ao banheiro, jogo água no rosto
pra ver se acordo um pouco. Vou à cantina, tomo um café, fumo. Não tem jeito.
Vai ser um dia de merda.
.
CÂNCER
A partir de hoje
sua vida entra numa nova fase, é um ótimo período do ano para avaliar o que
realizou de melhor em termos profissionais. E também é uma oportunidade
fantástica de se sensibilizar para o amor, há uma forte possibilidade de
encontrar a pessoa que o leve a habitar um mundo mais bonito e espiritual. A
realização pessoal é um objetivo que está a ponto de ser conquistado, só
depende de você. Fique de bem consigo mesmo.
.
Tem tudo no mercado. Só não tem ratoeira. Volto pra casa lendo a caixa de
veneno. A embalagem diz que é granulado e tem sabor e aroma que atraem
roedores, posso deixar em algum canto que o bicho vem e come. Diz que, se eu achar
melhor, também posso dissolver em água e mergulhar alguma comida para servir de
isca.
.
ATENÇÃO
Em hipótese
alguma ingira este produto. Conserve fora do alcance das crianças e dos animais
domésticos. Evite contato com os olhos. Em caso de contato com os olhos, lave
imediatamente com água em abundância. Não inalar. Em caso de ingestão, não
provoque vômito e consulte imediatamente o Centro de Intoxicações ou o médico
levando a embalagem do produto. Não dê nada por via oral a uma pessoa
inconsciente. Evite o contato prolongado com a pele. Depois de utilizar este
produto, lave bem e seque as mãos. Mantenha o produto em sua embalagem original
em local seco e fresco. A embalagem fechada conserva as propriedades do
produto. Não reutilize as embalagens vazias.
.
A única coisa que tem na geladeira é um salame. Um salame, mais nada.
Pego uma lata de massa de tomate. Vazia. Encho com água, coloco o veneno. Enfio
o salame dentro. Deixo a lata em cima do armário pra absorver bem. Pro veneno penetrar.
.
Os verbetes foram
retirados do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira. 3. ed. Curitiba: Positivo, 2004.
.
Coloco as sacolas na mesa. Não gosto de fazer compra. Nunca sei o que
comprar. Tem merda daquele bicho em baixo da mesa. E sei lá mais onde. Bicho
nojento. Enchendo minha casa de merda. Quando eu pegar, ele vai ver o que é uma
merda. O veneno tem um cheiro forte. Irrita o nariz. Espirro.
.
A estagiária me pergunta se tenho fogo. Se fosse um idiota diria que
tenho muito. Não digo. Acendo o cigarro. Ela puxa assunto. Quer saber se gosto
de trabalhar aqui. É bom. Nem pergunto nada e ela responde que só vai ficar até
terminar a faculdade, depois... Depois não presto mais atenção. Os peitos.
Olham pra mim. Biquinhos me hipnotizando. Apontando. Querendo furar meu olho.
Isso não pode ficar escondido do mundo atrás da roupa.
.
E também é uma oportunidade fantástica de se sensibilizar para o amor, há
uma forte possibilidade de encontrar a pessoa que o leve a habitar um mundo
mais bonito e espiritual.
.
Vou prender o bicho no forno e acender o gás. Quero ver os pelos
queimarem, sentir aquele cheiro. Ele vai morrer devagar. Bem devagar. Vou
deixar o fogo no mínimo. Ele vai tentar fugir, se debater, se jogar no vidro.
Vou deixar a luz do forno acesa e ver tudo.
.
Asse (forno a 180° C) de acordo com tempo previsto para cada fôrma. Não
abra o forno antes de 30 minutos de cozimento. Para verificar se está assado,
espete um palito quando estiver dourado. Se sair limpo, está pronto. Retire do
forno, deixe esfriar por 15 minutos, desenforme e sirva.
.
Os caras comem tudo que veem pela frente. Na China, acho que é na China,
eles comem gafanhoto e formiga. Comem cachorro também. Tem outro lugar, a
Tailândia acho, que comem até escorpião frito. Em compensação, aquele negócio
de massagem sexual vem de lá.
.
Os dentes dela são bonitos. Bem brancos. Ela não fuma. Não deve fumar.
Dentes de aparelho. Uniformes. Boca pequena. Quase não tem lábios. Parece só um
corte no meio da cara. Uma navalhada. Ela sempre tem que me mostrar esses
dentes? Coitada, não tem nada de carne. Isso é um restaurante tinha que ter
carne. Chega a dar pena olhar pra esses bracinhos. Uma menina de onze anos tem
mais peito que ela. O que me enche o saco é ela se oferecendo pra mim. Esses
peitinhos. Devem ter uns biquinhos escuros, quase pretos. Duros. Duas tetinhas
de cadela.
.
E também é uma oportunidade fantástica de se sensibilizar para o amor, há
uma forte possibilidade de encontrar a pessoa que o leve a habitar um mundo
mais bonito e espiritual
só depende de você
.
Deixei as sacolas na mesa. Merda. Não guardei. Quando chegar em casa o
bicho vai ter mexido em tudo. Cheio de merda dele. Comido o que eu comprei. A
compra do mês. Infectado tudo com a imundície. Com doença do esgoto. Não vai
ter como aproveitar porcaria nenhuma. Como se a casa fosse dele. Merda pra todo
lado. De dia é só dele. Entra e sai quando quer. Sei lá por onde. Tampei o
buraco. Ele cavou outro.
.
rato-caseiro. [De rato1
+ caseiro.] S. m. Bras. Zool. 1. V. rato-preto. 2. V. rato-pardo. [Pl.: ratos-caseiros.]
.
Ele não veio hoje. Tá tudo aqui. Nem mexeu na compra. Não foi tocada.
Igual a mocinha do restaurante. Aquelas tetinhas. Guardo no armário. Na
.
Alô.
Oi.
Oi, tudo bem, mãe?
Eu tô, e você?
Sim.
Hum, acho que liguei errado.
...
Faz tempo que você não vem aqui.
Você não disse que tinha ligado errado?
Disse, eu ia ligar pra uma amiga.
Eu tô ocupado, fazendo umas coisas.
O número tá na memória, disquei errado.
Então tá, tchau.
Tchau.
.
Na geladeira. Pronto, tudo limpo. Guardado. Arrumo qualquer coisa pra
comer. Tiro a sacola de lixo do balde. Cheiro de comida azeda. Podre. Coloco no
meio da cozinha. Pego a vassoura. Vou pro quarto. Deito, ligo a tv e deixo sem
volume. Venha, meu amigo. Qualquer barulhinho eu vou estar aí. Te arrebentando com
a vassoura. Tô te esperando. Venha.
.
Aquele salame com veneno. Uma covardia. É apetitoso, parece gostoso. Até
eu tenho vontade de comer aquilo. Se eu coloco o salame pra ele comer, ele
come. Morre em qualquer canto. Não vou saber se morreu mesmo. Nunca vou saber.
O que eu tinha na cabeça? Pensar em dar veneno pra ele. Ideia idiota. Ele morre
debaixo da casa, fica um fedor de carniça. Não. Nada de envenenar. Tem que ser
de outro jeito.
.
há quanto tempo
não faço um bom haicai
culpa do bicho
.
Acordo. A tv ligada. Faixas coloridas na tela. Um arco-íris no meu
quarto. Desligo. Olho o relógio. Daqui a pouco já desperta. Quase hora de
levantar. Parece que tô pior do que deitei. Cachorros latem na rua. Me estico,
levanto. Cansado pra cacete. Esfrego os olhos. A vassoura do lado da cama.
Vassoura? Droga, eu dormi. Me esqueci do bicho.
.
Dor nas costas. Trabalhar o dia inteiro sentado acaba comigo. Mãos
formigando. Câimbra nas pernas. Sem sono. Só cansado. Estralo os dedos. Já
fumei muito hoje, café demais. Se eu faço outro intervalo o chefe me enche o
saco. Ano passado vieram com um papo de ginástica laboral. Aqui na empresa. Era
patético. Três, quatro vezes por dia a gente levantava e saía pulando. Tinha
uma gorda que parecia um coelho de páscoa. Ridícula. Todo mundo se alongando.
Os velhos suavam. Molhavam a camisa. A porcaria não deu certo.
.
Faz bem saber: A prática de atividades físicas juntamente com uma
alimentação balanceada são indispensáveis para as crianças, pois contribuem
para que sejam adultos com hábitos saudáveis.
.
Será que ele não vem mais?
.
Fome. Não comi direito ontem. Peguei qualquer coisa do armário hoje de
manhã. Café com pão. Comida ruim. Pão amanhecido. Café barato. Instantâneo. Dá
pra sentir litros de café aqui dentro. Fermentando na barriga. Um gás subindo
pela garganta, saindo pela boca. Tenho que comer direito. Empurrar o café pra
baixo. Deixei passar o horário de almoço. Não saí. Quais eram as carnes que a
mocinha do restaurante ia me oferecer hoje?
.
E o que nós vamos fazer amanhã, Cérebro?
O mesmo que fazemos todas as noites, Pink: tentar dominar o mundo.
.
A mesma coisa. Não adianta. Ele é esperto, não vem quando tô acordado.
Não veio ontem, nem quando eu tava dormindo. Pode ser que não venha mais. Ponho
o lixo pra fora. Pro lixeiro levar. Não preciso mais disso. Vou mudar o plano.
.
Desligo o disjuntor da luz. Tiro a tampinha da tomada com uma faca. Não
tenho chave de fenda. Puxo um fio e descasco. Puxo outro e descasco. Enrosco um
fio numa tampa de panela. De alumínio. Enfio a ponta do outro fio dentro de uma
lata de sardinha. Lata aberta. Coloco a tampa no chão. Coloco meu chinelo de
borracha em cima da tampa. Coloco a lata de sardinha em cima do chinelo. A
borracha do chinelo isola. Quando ele vier comer a sardinha vai fechar o
curto-circuito. A corrente elétrica vai passar por ele da tampa da panela pra
lata de sardinha. Um choque de cento e dez volts. Ele vai ficar preso pela
corrente elétrica. Vai torrar. Eu o condeno, sua sentença é a morte. Vou sentir
seu cheiro queimando. Mais forte que cheiro de sardinha.
.
Ele nunca aprendeu. Lá foi o Tom enfiar mão na toca do Jerry de novo.
Sempre tinha uma ratoeira. Mas pra surpresa do telespectador, não nesse
episódio. Foi uma piada um pouco melhor. O rato enganou o Tom e fez ele pegar
nos fios da tomada. O gato se arrepiou todo, soltou um grito. Ficou piscando,
aparecendo o esqueleto com aquele contorno preto. O Jerry rolou no chão de
tanto rir. Acho que ele sempre divertia mais do que quem tava vendo o
desenho.
.
Mentira. É tudo mentira. Eu nunca consegui fazer um haicai. Tem alguma
coisa com as estações do ano. Eu só faço uns versinhos mais ou menos.
.
O chefe me pergunta se tô com algum problema. Diz que pareço abatido. Que
eu tô pálido. É que ando dormindo pouco. Nada, só estresse. Fala que preciso de
uma folga pra relaxar. Me dá um cartão. Guardo no bolso sem olhar. Me manda
passar um dias em casa, até me sentir melhor. Mas eu tô bem. Ele insiste, pelo
menos uma semana, pra resolver os problemas. Ele é o chefe, tenho que obedecer.
Levanto e saio. Vejo um zumbi refletido no vidro da janela. Eu. Agora entendo.
.
A tv sem volume. Não pus mais. As mesmas notícias sempre. Não preciso
ouvir. Presto atenção, sei o que acontece. Presto atenção se o bicho vem. Entra
na minha casa. Eu ouço as coisas. O apresentador do jornal sorri. Uma sequência
de imagens da África miserável. Os africanos sorriem com as costelas à mostra. Posso
adivinhar o que locutor diz. Superpopulação de roedores ultrapassa a humana, o
que pareceu inicialmente um problema se mostrou como a grande solução da baixa
expectativa de vida entre os mais necessitados. São milhares de famílias
felizes com estas iguarias. E a população atesta que o sabor é dos mais
agradáveis. Close na cara de um menino esquelético que sorri. Corta. Muda pra
outra notícia.