segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O resto da vida

Ele atravessou a porta correndo.
Pai, pai, já sei. Vou ser lixeiro.
Quando a gente pergunta a um filho o que ele será quando crescer, nunca espera uma pancada dessas. Deve fazer uma semana que o questionei, mas só queria que o menino pensasse.
Calma aí, filhão, não é assim. Você tem que pensar bem, as coisas não
Mas eu tenho certeza já, vou ser lixeiro.
Você quer dizer gari. O nome do profissional é gari.
Ah, tá.
As coisas não são desse jeito, filho. Você tem que pensar muito bem, porque quando decidir é pro resto da vida. E já pensou em como vai sustentar uma família com um salário de gari?
Mas eles ganham bem, eu vi na tv, eles recebem bem mais que o dinheiro que você me dá. 
Isso ainda, parecia até que eu estava sendo chantageado pelo próprio filho.
Acontece que você é só um menino, não precisa de muito dinheiro. E eu compro tudo pra você. O dinheiro que dou é pra aprender a administrar suas coisas.  
Eu sei, pai. Mas eles ganham bem. Passou na tv que tinha uma fila gigante de gente querendo ser lixeiro 
Gari.
É, isso. Tinha uma filona de gente pra trabalhar de gari. A mãe até disse nossa, tem até professor. 
Então tudo fez sentido, era óbvio que tinha o dedo de mais alguém nessa história, meu filho não pensaria numa coisa dessas sem uma mente maquiavélica pra ajudar.
Tudo bem, entendi. Isso é ideia da sua mãe, pra me provocar.
Não é, não. Eu pensei sozinho.
E posso saber por que decidiu ser gari?
Porque é legal.
Tá bom, é legal. Mas quero que explique por quê. Como você pensou nisso?
Eu tava brincando lá fora e daí tava passando o caminhão de lixo na rua e daí desceu um gari rindo do caminhão pra pegar o lixo da casa daquele homem que só tem cabelo aqui assim do lado e em cima é careca
O Almeida.
aquele que é seu amigo e daí ele pulou aquela cerca baixinha que tem lá e pegou um montão de saco que tinha lá e daí apareceu aquele cachorro manchado feio e o gari chutou ele e saiu correndo com aquele punhado de saco e pulou a cerquinha só que o caminhão já tava lá longe lá na esquina e ele ficou assobiando bem alto pro motorista não deixar ele pra trás mas eu acho que ele não ouviu porque ele não parou e daí o gari foi correndo e o outro gari amigo dele esticou o braço e puxou ele pra cima e daí o outro gari desceu e pegou mais um monte de saco e assobiou pra uma mulher bonita que tava lá na rua.
E só porque eles chutam cachorro, correm atrás de caminhão e ficam assobiando, por isso você quer ser lixeiro?
É gari, pai.
Sim, eu sei. Mas é por isso que você quer ser gari?
Não, pai. Eles se divertem e eles passam rindo e assobiando e eles trabalham lá fora na rua e não ficam só fechados no escritório e acho que eles ficam com os filhos e eles têm uma roupa colorida laranjada
Alaranjada.
e tem aqueles outros que tem uma roupa verde que também é bem legal e eles não usam só essas roupas escuras que nem você. Eles são alegres, pai.
Olhei pro relógio, em meia hora eu tinha que entregar um artigo.
Olha, filho, o pai tem que trabalhar agora, tá? Depois a gente conversa mais sobre isso, tá bom?
Ele saiu do escritório e eu corri com meu trabalho, terminei de redigir em cima da hora. Depois fui ao massagista, a poltrona tem acabado com a minha coluna.
Quando fui ver, o menino já tinha dormido. Fiquei pensando a respeito, e acho que eu estava errado, porque, se não me engano, gari é o profissional ocupado com a limpeza das ruas, o profissional que recolhe o lixo se chama lixeiro mesmo. Ainda não resolvemos a situação, mas comprei duas gravatas novas, uma alaranjada e outra verde.


    

Um comentário:

  1. Este conto foi premiado no Festival Litercultura e publicado na antologia "Novos autores curitibanos", 2013.

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