sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Meu nome gritado

Beta
Você se ajeita na poltrona e nota que o tecido encardiu, liga a tv e troca os canais. Alguém dá entrevista com voz metálica, o pastor faz seus milagres, tragédia no Oriente Médio, show de música sertaneja, comercial de margarina, uma loira abre um sorriso hollywoodiano para o moreno alto. Você pesa o valor dos dois, difícil decidir. Desliga e fixa o contraste da loira e o moreno. Você confere os calos da mão, os dedos enrugados, a aspereza do rosto. Descasca o esmalte das unhas e joga no aquário para ver se o peixe come. Para ele tudo é mais fácil. Você pensa que precisa de mais um quadro, mas percebe que na parede não há mais espaço. Baixa os olhos e confirma as estrias, as acha estranhas. Então, você decide que o pênis não mais lhe convém.     



Quem
Gritaram meu nome na rua. Não sei que pavor aquele, me fez apertar o passo, dobrar a esquina, entrar subitamente no prédio. Do sombrio hall olhei seu vulto passar sem distinção, pude ouvir com clareza meu nome gritado novamente pela voz estranha. Não saberia dizer por que fugi. Faltou-me o ímpeto de acompanhar seu espectro, investigar seu destino. Quem era essa obscura voz me gritando? O que podia querer comigo? Seria um amante vacilando de saudade? O juiz que conhece os meus crimes?
Subi ao meu quarto, tranquei-me na solidão. Olhei pela janela, fitei o horizonte interrompido pelos prédios. Busquei o desconhecido que me buscou, me quis. Mas ele havia se afastado do meu quarto.          



Corredores de sal
Ela vivia com o saleiro atrás das lesmas. Não adiantava que eu pedisse para deixá-las em paz. Até o dia em que não aguentou, encontrei o bilhete de chavões em cima da mesa.
     Acredito que subiam pelo ralo, bastaria tampar. Tomaram conta da casa, seu rastro brilhante por toda a parte, do chão ao teto, dentro dos copos, no controle remoto, na tela do computador, não sei como entraram na geladeira.
     Quando sentia falta da mulher me distraía com elas, fazia corredores de sal para vê-las andar lado a lado. Apostavam corrida. Às vezes acordava assustado e encontrava um molusco de um palmo sobre o peito. No trabalho, todos os papéis estão colados pelo suor pegajoso que escorre dos meus dedos.
     A saudade me maltratava. Chego em casa e as encontro sob o lençol, cochilando umas sobre as outras, centenas de gastrópodes. Então tiro a roupa e me deito.          

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