Beta
Você se ajeita na poltrona
e nota que o tecido encardiu, liga a tv e troca os canais. Alguém dá entrevista
com voz metálica, o pastor faz seus milagres, tragédia no Oriente Médio, show
de música sertaneja, comercial de margarina, uma loira abre um sorriso hollywoodiano
para o moreno alto. Você pesa o valor dos dois, difícil decidir. Desliga e fixa
o contraste da loira e o moreno. Você confere os calos da mão, os dedos
enrugados, a aspereza do rosto. Descasca o esmalte das unhas e joga no
aquário para ver se o peixe come. Para ele tudo é mais fácil. Você pensa que
precisa de mais um quadro, mas percebe que na parede não há mais espaço. Baixa
os olhos e confirma as estrias, as acha estranhas. Então, você decide que o
pênis não mais lhe convém.
Quem
Gritaram meu nome na rua.
Não sei que pavor aquele, me fez apertar o passo, dobrar a esquina, entrar
subitamente no prédio. Do sombrio hall olhei seu vulto passar sem distinção,
pude ouvir com clareza meu nome gritado novamente pela voz estranha. Não saberia
dizer por que fugi. Faltou-me o ímpeto de acompanhar seu espectro, investigar
seu destino. Quem era essa obscura voz me gritando? O que podia querer comigo?
Seria um amante vacilando de saudade? O juiz que conhece os meus crimes?
Subi ao meu quarto, tranquei-me
na solidão. Olhei pela janela, fitei o horizonte interrompido pelos prédios.
Busquei o desconhecido que me buscou, me quis. Mas ele havia se afastado do meu
quarto.
Corredores de sal
Ela vivia com o saleiro
atrás das lesmas. Não adiantava que eu pedisse para deixá-las em paz. Até o dia
em que não aguentou, encontrei o bilhete de chavões em cima da mesa.
Acredito
que subiam pelo ralo, bastaria tampar. Tomaram conta da casa, seu rastro
brilhante por toda a parte, do chão ao teto, dentro dos copos, no controle
remoto, na tela do computador, não sei como entraram na geladeira.
Quando
sentia falta da mulher me distraía com elas, fazia corredores de sal para
vê-las andar lado a lado. Apostavam corrida. Às vezes acordava assustado e
encontrava um molusco de um palmo sobre o peito. No trabalho, todos os papéis
estão colados pelo suor pegajoso que escorre dos meus dedos.
A
saudade me maltratava. Chego em casa e as encontro sob o lençol, cochilando
umas sobre as outras, centenas de gastrópodes. Então tiro a roupa e me
deito.
Estes contos foram publicados no Jornal Relevo, dezembro de 2013.
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